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Medo não é Falta de Fé
Poder Cotidiano - #076

Já reparou como o medo tem uma habilidade impressionante de nos fazer sentir como se estivéssemos sozinhos?
Ele chega sem pedir licença. Pode ser no meio da noite, quando o silêncio amplifica os pensamentos. Ou naquele instante em que o médico faz uma expressão difícil de decifrar. Ou ainda diante da tela do computador ou do celular, com o peso de uma decisão que parece grande demais para os seus ombros.
Nessas horas, a sensação é de que estamos em um campo aberto, sozinhos, cercados por inimigos que não vemos. E o salmista Davi sabia exatamente como isso funcionava. Ele escreveu o Salmo 56 em um dos períodos mais sombrios de sua vida: quando foi capturado pelos filisteus em Gate.
Para se ter uma ideia, ele estava tão desesperado que chegou a fingir loucura para escapar com vida. Essa história está registrada em 1 Samuel 21. Não era um medo teórico. Era o medo de verdade, daquele que faz a boca secar e o coração disparar.
E é justamente nesse contexto que ele nos presenteia com um verso que se tornou um clássico para os ansiosos de plantão:
"Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti"
Hoje, quero convidar você, para olharmos essa frase não como um simples mantra motivacional, mas como uma profunda teologia para o caos.
O "Mas" que transforma a narrativa
Note a primeira expressão do versículo: "Mas". Esse "mas" é um ponto de virada.
Antes dele, Davi descreve um cenário desesperador. Ele diz:
"Os meus inimigos me esmagam o dia todo, pois são muitos os que me atacam" .
Ele está sendo perseguido, caluniado e vigiado. A realidade é brutal.
Nos Salmos, a fé nunca nega a realidade do sofrimento; ela a confronta com uma realidade maior. Davi não diz "não estou com medo". Ele diz: “estou com medo, mas... A fé não é a ausência do pânico; é a decisão de não permitir que ele tenha a última palavra. É colocar um "mas" no meio do caos.
Esse "mas" é o que nos impede de desabar. É a consciência de que, por mais forte que seja a tempestade, existe um Deus que está no comando da história.
Medo e fé: uma dupla que caminha juntinha
Aqui, é possível inserir uma observação que nos livra de um peso enorme. A de que Davi sente medo, mas sua fé triunfa sobre o pânico. O que nos possibilita argumentar então, que a fé não elimina a fragilidade humana, mas impede que o medo nos paralise.
Quantas vezes nos sentimos culpados por ter medo? Achamos que, se tivéssemos uma fé forte, o medo simplesmente evaporaria! Mas a Escritura nos mostra o contrário. A fé forte não é a que não sente o chão tremer, mas a que decide firmar os pés na Rocha mesmo enquanto o chão treme.
É libertador saber que Davi, um homem segundo o coração de Deus, estava com medo. A diferença é que ele havia aprendido a rota de fuga: quando o medo batesse à porta, ele direcionaria sua alma a Deus. O medo não foi ignorado; foi subordinado à confiança.
A segurança que vem de um Deus presente
A base dessa confiança não é um sentimento vago de otimismo. É algo muito mais sólido. No versículo 9 do mesmo capítulo, Davi afirma: "Uma coisa eu sei: Deus está comigo".
Esse "saber" não vem de evidências físicas, mas da promessa de Deus. É uma convicção interna e espiritual. Em outras palavras, a segurança da nossa fé não está em quão fortes somos, mas em Quem está conosco.
A segurança do crente não está ancorada em suas obras, mas na fidelidade imutável de Deus. Quando entendemos que o Deus que não poupou o seu próprio Filho por nós está ao nosso lado, os "simples seres humanos" como Davi os chama, perdem o poder de nos destruir por dentro. O que podem nos fazer? Podem nos machucar, podem nos frustrar, mas não podem nos arrancar das mãos daquele que nos guarda.
Quando o medo chegar
Como viveremos isso nessa segunda-feira? Como aplicaremos essa verdade no trânsito, nas contas a pagar ou nas relações desgastadas..?
Aqui estão algumas posturas práticas inspiradas no Salmo 56:
Nomeie o medo, não o disfarce: Davi não disse "estou tranquilo". Ele disse "estou com medo". Você tem falado para Deus exatamente o que te apavora? A oração não precisa ser polida para ser sincera. Diga: "Pai, isso aqui me aterroriza". A confiança começa com a honestidade.
Cultive o "saber" em vez do "sentir": Nossos sentimentos são instáveis. Eles mudam conforme o café, o trânsito ou o hormônio. A segurança da fé está na promessa, não no humor. Reserve um tempo para anotar ou meditar nas promessas de Deus. Quando o medo vier, você terá um arsenal de verdades para confrontá-lo, assim como Davi fez.
Lembre-se do livro de lágrimas: O Salmo 56.8 traz uma imagem lindíssima: "Tu contaste os meus passos; recolheste as minhas lágrimas num odre; não estão elas no teu livro?" O que significa que Deus não despreza sua dor. Ela é registrada, tem valor e é levada a sério por Ele. Isso transforma nossa perspectiva: não estamos chorando no vazio, estamos chorando nos braços de Quem anota cada detalhe.
O mais lindo nessa jornada de Davi é o destino final do medo. No início do salmo, ele está cercado, com medo. No final, ele declara: "Cumprirei os meus votos a ti, ó Deus; oferecerei ações de graças" .
A confiança transformou sua perspectiva. Ele começou falando de inimigos e terminou falando de louvor. Quando decidimos que o medo não terá a última palavra, porque depositamos a confiança naquele que já venceu a morte, nossa história deixa de ser apenas uma história de sobrevivência e se torna um testemunho de adoração.
A fé não remove as montanhas de dificuldades, mas nos dá asas para voar sobre elas. E quando voamos, conseguimos ver que o Deus que está conosco é maior do que o vale que estamos atravessando.
Que nesta semana, quando o medo tentar se instalar, você não o reprima. Reconheça-o, mas faça como Davi: coloque um "mas" na frente.
"Mas eu, Senhor, confiarei em ti."
📩 Até Segunda!
Um forte abraço e uma semana de muita coragem,
✦ Poder Cotidiano
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