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É Muito Importante
Poder Cotidiano - #066

Há uma cena no Evangelho de Marcos que, em nossa cultura obcecada por produtividade, soa quase como um paradoxo. Os discípulos acabaram de voltar de uma missão intensa, cheios de histórias, vitórias e, certamente, exaustão.
E a primeira palavra de Jesus para eles não é “Vamos analisar os resultados” ou “Qual é o próximo desafio?”. É um convite que pode nos causar um pouco de desconforto:
“Vinde repousar um pouco, à parte”
Jesus, em sua humanidade perfeita, reconhecia a necessidade legítima do repouso físico e mental. No texto original, a ação “vinde”, está flexionada no imperativo afirmativo.
O que significa que o descanso não é uma sugestão opcional, mas uma ordem amorosa do próprio Senhor. Eles foram para um lugar deserto, um “lugar à parte”, propositalmente isolado para que a recuperação fosse possível.
Mas a cena se complica. As multidões, antecipando o trajeto de Jesus e dos discípulos, correm por terra e chegam primeiro. Ao desembarcar, Jesus vê a grande multidão.
E aqui está o coração do texto: Jesus “teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor”. Sua fadiga não O tornou insensível; paradoxalmente, o descanso em Deus é que O capacitou para a compaixão autêntica e o serviço sustentável.
Este episódio não é apenas sobre tirar um cochilo. É sobre a teologia do descanso que fundamenta tudo o que somos e fazemos. Vamos explorar um pouco mais:
1. O Descanso como Ato de Fé e Esperança
Descansar é, antes de tudo, um ato de confiança. É declarar, com nossas agendas vazias e nossos dispositivos desligados, que o mundo não depende de nosso esforço frenético, mas da soberania de Deus.
Quando ignoramos o imperativo “vinde repousar”, estamos, na prática, vivendo como se tudo dependesse de nós. O descanso é um exercício de esperança: cremos que Deus trabalha enquanto dormimos, que Ele cuida do que deixamos nas Suas mãos. É crer que nossa identidade não está no que produzimos, mas em quem somos no Senhor.
2. O Descanso que Nutre a Motivação
O cansaço extremo distorce nossa visão. Ele nos torna cínicos, irritadiços e nos leva a tomar decisões por impulsos emocionais, não por discernimento. Jesus chamou os discípulos para “um lugar à parte”.
Esse afastamento é essencial até para desenvolver um senso crítico saudável, capaz de analisar a missão realizada (“reunidos com Jesus, contaram-lhe tudo”) o que está por vir. O descanso nos tira da reação automática e nos coloca no lugar da reflexão. A motivação duradoura não vem do esgotamento, mas da renovação.
3. O Ciclo Divino: Enchimento para o Esvaziamento
A vida cristã não é linear; é um ritmo ordenado por Deus. Observe o padrão em Marcos:
Missão (esvaziamento): Os discípulos saem, pregam, curam, gastam-se.
Relato e Repouso (enchimento): Voltam para Jesus, contam, e são comandados a descansar.
Nova Compaixão (esvaziamento renovado): Do repouso com Jesus, brota uma compaixão genuína (a dele) para o próximo serviço.
Ignorar a fase do “enchimento” é distorcer o ciclo. Transformamos o serviço em ativismo e a piedade em performance. O desenvolvimento humano e espiritual autêntico acontece nesse ritmo de graça.
Aplicações para o Seu Cotidiano:
Guarde o “Lugar à Parte”: Pode ser 15 minutos pela manhã sem celular, uma caminhada silenciosa, ou bloquear uma hora na semana para literalmente não fazer nada produtivo. Torne isso um ato de adoração, não de preguiça.
Avalie com Jesus: Antes de mergulhar em um novo projeto, pratique o “relato” dos discípulos. Pare e converse com Deus sobre o que passou. O que aprendeu? O que O glorificou? Isso traz clareza e fecha ciclos.
Compaixão, Não Canseira: Se você se sente constantemente irritado com as necessidades alheias (a “multidão” da sua vida), é um sinal de que pulou a etapa do repouso. A compaixão de Jesus flui de quem está fundamentado no Pai, não de quem está no limite.
Descanse no Trabalho: Reformule mentalmente suas pausas no trabalho. Não são “perdas de tempo”, mas declarações práticas de que você é um ser humano dependente, não uma máquina. Isso é piedade prática.
Creio que este ensinamento tem o poder de transformar radicalmente sua perspectiva. Você deixará de ver o descanso como um inimigo da produtividade ou um prêmio por esgotamento, e começará a vê-lo como um sinal do evangelho, um lembrete semanal (e diário) de que a salvação não se conquista, se recebe. A obra consumada de Cristo é o nosso Último Repouso, do qual todos os nossos pequenos repousos são um reflexo e um antegozo.
Quando você abraçar este ritmo divino, seu comportamento mudará. Você dirá “não” sem culpa. Você trabalhará com mais foco e menos ansiedade, porque saberá que há um tempo designado para parar. Você se aproximará das pessoas não como um poço seco, mas como um canal que foi recentemente realimentado na fonte. Sua fé se tornará mais resiliente, sua esperança mais tangível e seu serviço, verdadeiramente sustentável.
Afinal, aquele que nos ordena “Vinde repousar” é o mesmo que disse:
“Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna.”
O descanso é a nossa ocasião oportuna para encontrar a graça que sustenta tudo.
📩 Até Segunda!
Em busca do repouso do Senhor,
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