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Quando a Presença Fala mais Alto
Poder Cotidiano - #062

Querido(a) leitor(a),
Você que lê o Poder Cotidiano todas as semanas, certamente percebeu a ausência da publicação na última segunda. Essa lacuna não se deu em função de falta de tempo ou de esquecimento, mas em função de ter sido silenciado por um breve tempo, mediante uma perda muito significativa que sofri.
No último Domingo dia 14, minha família foi atravessada por uma onda de dor súbita e avassaladora: a perda do meu sobrinho de 43 anos, em um fatal acidente de moto.
Nesse dia e nos que se seguiram, entre o choque e o luto, descobri algo que as palavras não conseguiam descrever: a força silenciosa, quase palpável, de amigos que simplesmente estavam ali.
Eles não tinham respostas para os meus “porquês”. Não ofereciam discursos prontos. Mas, em meio ao desespero, a presença constante deles, era um fio de oxigênio em um ambiente sem ar. Foi nesse contexto que um verso conhecido ganhou carne e osso na minha experiência:
“O amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão”
Pode parecer um versículo simples, até óbvio. Mas mergulhar nele, revelou camadas profundas sobre o que é a amizade à luz da sabedoria divina, especialmente nas horas mais escuras.
O que Esse Verso Realmente nos Ensina Sobre Amizade?
Este provérbio vai muito além de um conselho moral genérico. Ele apresenta uma visão densa e prática do amor leal, que caracteriza a verdadeira amizade.
“O amigo verdadeiro ama em todo o tempo”: A expressão chave aqui é “em todo o tempo”. Não é um amor de ocasião, de facilidades ou de alegrias compartilhadas. É um compromisso contínuo, um pacto de lealdade que persiste nos “tempos” bons, ruins, monótonos ou catastróficos. Essa amizade é uma expressão prática da graça comum de Deus, um reflexo do próprio caráter fiel do Senhor na esfera dos relacionamentos humanos.
“E para a angústia nasce o irmão”: Esta segunda linha é poderosa. Não diz “em tempos de angústia, o amigo se comporta como um irmão”. Mas que “nasce o irmão”. A ideia é de algo que surge, que se revela, que se concretiza na crise. A angústia (aperto, adversidade extrema) é o terreno onde a verdadeira natureza fraternal da amizade é gerada e manifestada. Não é que o amigo vire um irmão; é que, naquela hora, ele se revela como o irmão que sempre foi no propósito de Deus para o seu sustento. Pois é na pressão que a essência é exposta.
Fé, Esperança e Amizade no Vale da Sombra
No meu luto, essa verdade bíblica saiu das páginas e se tornou experiência concreta.
A Fé que se Apoia no Corpo de Cristo: Minha fé pessoal estava abalada, interrogando Deus. Mas, curiosamente, ela foi sustentada pela fé prática dos meus amigos. Eles oravam por mim, quando eu não conseguia orar, carregavam minha descrença momentânea. Eles eram a mão tangível de Cristo, o “corpo de Cristo” em ação, me lembrando que eu não estava fora do cuidado de Deus, mesmo quando não conseguia sentí-lo.
A Esperança que Resiste na Presença: A esperança não voltou através de sermões, mas através de presenças silenciosas. Um copo com água, um abraço demorado, um beijo na cabeça, a simples companhia silenciosa, eram atos que sussurravam: “A vida ainda tem textura, ainda há normalidade possível, e você não caminhará sozinho até encontrá-la”. A esperança brotava do solo regado pela constância deles.
A Motivação que Vem do Dever de Amor: Em meio à dor, uma motivação estranha surgiu: a de honrar esse amor recebido. Se meus amigos podiam “nascer como irmãos” na minha angústia, eu era chamado a fazer o mesmo no mundo. Sua lealdade me motivou a não me fechar, mas a tornar-me, no futuro, esse “irmão nascido na angústia” para outra pessoa.
Em Dias de Angústia
Priorize a Presença ao Discurso: Não espere ter as palavras perfeitas. Muitas vezes, a frase mais teológica pode ser um ruído estranho. Um “Estou aqui” e um abraço silencioso podem carregar muito mais sabedoria bíblica do que um tratado sobre a soberania divina mal aplicado no calor da dor.
Ame com Ato Contínuo: “Em todo o tempo” significa depois do velório. Ligue depois de três semanas. Mande uma mensagem depois de dois meses. A angústia é longa, e o “irmão” precisa renascer para toda a jornada, não apenas para a emergência.
Receba com Graça a Assistência: Para quem está sofrendo: permita-se ser amado. Aceitar o café, a comida, o silêncio compartilhado é um ato de humildade que honra o chamado do seu amigo para amar. Não roube deles a bênção de “nascerem como irmãos” para você.
Do Luto à Comunhão Missionária
A experiência mais profunda que esse versículo e a perda do meu sobrinho me trouxeram foi uma transposição completa da visão sobre a comunidade. Percebi que a amizade fiel não é um acessório opcional da vida cristã; é um meio de graça santificador.
Deus usa os “irmãos que nascem na angústia” para nos conformar à imagem de Cristo, que é de fato, o modelo de Amigo que ama em todo o tempo (João 15.13) e que se fez Irmão em nossa mais profunda angústia (Hebreus 2.11,17).
Isso transforma cada amizade em um campo missionário sagrado e cada ato de lealdade em uma pregação não verbal do Evangelho. Não somos salvos para um relacionamento individualista com Deus, mas para um corpo onde, nas angústias uns dos outros, nos revelamos como família.
Sua dor não é um desvio de rota; é, muitas vezes, o terreno onde Deus planta as raízes mais profundas da comunhão que nos sustentará até o dia em que toda angústia findar.
Que olhemos hoje mesmo, para nossos amigos com novos olhos e nos permitamos ser, para alguém, o irmão que nasce justamente quando o chão parece ceder.
“O conforto de Deus muitas vezes tem o rosto e as mãos dos amigos que Ele colocou ao nosso lado.”
Foi assim pra mim. Obrigado AMIGOS!
📩 Até Segunda!
Com gratidão pela caminhada juntos,
✦ Poder Cotidiano
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