Quando o Cansaço Fala Mais Alto

Poder Cotidiano - #065

Há dias em que o peso do mundo parece um fardo feito sob medida para os nossos ombros. A notícia ruim que não para de chegar, as contas que se acumulam, a dor de um amigo, a incerteza do amanhã, a exaustão de correr e sentir que não saímos do lugar.

É um cansaço que vai além do físico; é uma fadiga da alma. Se você se reconhece nessa descrição, respire fundo. Você não está só. E há um olhar que vê você justamente aí, no meio desse turbilhão. Em Mateus 9.36, lemos o seguinte:

“Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor.”

Essa é uma das cenas mais humanas e reveladoras de Jesus nos evangelhos. Ele não vê uma massa anônima, uma estatística ou um “público-alvo”. Ele vê pessoas. Pessoas aflitas (oprimidas, angustiadas) e exaustas (jogadas ao chão, desamparadas).

Essa compaixão de Cristo não é um mero sentimento passageiro, mas uma profunda comoção interior que inevitavelmente leva à ação. É um verbo, não um adjetivo.

A expressão “como ovelhas que não têm pastor” era uma imagem poderosa no Antigo Testamento para descrever um povo desorientado, sem direção, vulnerável e sem cuidado. Era o retrato máximo do abandono.

Mas o que esse olhar de Jesus tem a dizer para a nossa vida prática, hoje? Como essa verdade pode nos sustentar e, mais do que isso, nos transformar?

O Olhar que Reconstrói – Fé no Meio do Caos

A primeira verdade que salta do texto é: Jesus vê. Em um mundo que nos reduz a números e algoritmos, o Cristo ressurreto vê sua aflição específica, sua exaustão particular. Sua fé não precisa ser construída sobre a ideia de que “tudo vai dar certo magicamente”, mas sobre a rocha inabalável de que você é visto e conhecido pelo nosso Senhor.

Antes de você clamar, Ele já viu. Antes de você desabar, Ele já se compadeceu. Isso tira o fardo da performance espiritual de nossas costas. Você pode chegar a Ele exausto. A fé começa aqui: no descanso de ser visto com graça.

Hoje, em seus momentos de maior ansiedade, experimente fazer uma pausa e declarar ainda que em voz baixa: “Senhor, eu sei que tu me vês. E o teu olhar é de compaixão.” Substitua o mantra da autocrítica pelo lembrete da graça prévia.

A Compaixão que Move – Esperança e Motivação Renovadas

A compaixão de Cristo (uma comoção nas entranhas), é a fonte de nossa esperança. Essa compaixão levou Jesus a ensinar, curar e, finalmente, dar a vida. Nossa esperança não está na ausência de problemas, mas na presença de um Salvador que se comove e age.

Essa ação muda nossa motivação. Já não lutamos para chamar a atenção ou para merecer cuidado. Lutamos a partir do cuidado já demonstrado na cruz. Nossa energia se renova quando entendemos que somos instrumentos da mesma compaixão que nos alcançou. O cansaço que paralisa pode dar lugar a um cansaço no serviço amoroso, que traz satisfação profunda.

Identifique uma pequena ação movida por compaixão (um contato, uma ajuda prática, uma palavra de ânimo) que você pode realizar esta semana. Não como um peso a mais, mas como um transbordamento do consolo que você mesmo recebeu de Deus.

De Ovelhas Desgarradas a Discípulos com Senso Crítico

Estar “como ovelhas sem pastor” também fala de uma desorientação intelectual e espiritual. Sem um pastor fiel, seguimos qualquer voz, qualquer ideologia, qualquer promessa vazia. Jesus, o Bom Pastor, nos conduz a pastos verdejantes e águas tranquilas, mas também nos chama ao discipulado da mente.

Ser cuidado por Cristo não é ser infantilizado; é ser capacitado a discernir. Ele nos guia para que possamos avaliar as “vozes” do nosso tempo, da mídia, das filosofias dominantes, à luz da verdade eterna. Nosso amadurecimento pleno envolve ser curado da exaustão para pensar com clareza e amor.

Escolha um tema ou notícia que tem gerado ansiedade em você. Em vez de apenas consumir mais opiniões, leve-a à luz do Salmo 23 e de Mateus 9.36. Pergunte-se: “Como o Evangelho do Bom Pastor me faz enxergar isso de forma diferente?”

A transformação pessoal que este texto propõe é radical: somos transpostos de dentro do quadro para a posição de Jesus.

No início, somos a multidão aflita e exausta vista por Jesus. Recebemos seu olhar de compaixão. Mas à medida que somos curados e alimentados por Ele, o Bom Pastor, somos gradualmente chamados a ver o mundo com os seus olhos. Nossa jornada de fé nos leva de sermos as ovelhas desgarradas a nos tornarmos, pela graça e sob seu senhorio, canais da sua compaixão pastoral para os ao nosso redor.

Você deixa de ser apenas o beneficiário do olhar e passa a ser, no dia a dia da sua família, do seu trabalho, do seu bairro, aquela pessoas que para, observa e se comove. Você é chamado/a a estender, em gestos concretos e em palavras cheias de graça, o pastoreio de Cristo. A exaustão pode não desaparecer totalmente nesta vida, mas ela perde a última palavra. Ela é substituída por um propósito profundo: caminhar com o Pastor e, no poder do seu Espírito, apontar outros cansados para os braços daquele que sempre os viu.

“Porque vocês eram como ovelhas desgarradas, mas agora se converteram ao Pastor e Bispo de suas almas.”

(1 Pedro 2.25)

📩 Até Segunda!

Com muita compaixão,
Poder Cotidiano

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